Entenda o conceito de homem-massa em Ortega y Gasset e descubra por que abrir mão do pensamento próprio pode ser tão confortável.
Pensar como todo mundo pode ser uma das formas mais confortáveis de não pensar.
A constatação parece simples, mas ganha uma dimensão muito mais profunda quando examinada por José Ortega y Gasset em A Rebelião das Massas, publicada em 1930. O filósofo espanhol não estava simplesmente criticando multidões, trabalhadores ou pessoas comuns. Seu alvo era muito mais incômodo: um determinado modo de ser humano, caracterizado pela satisfação consigo mesmo, pela recusa do esforço intelectual e pela disposição de aceitar como verdade aquilo que já circula como opinião comum.
O que é o homem-massa?
Para Ortega, a “massa” não é uma classe social. O homem-massa pode existir em qualquer posição econômica ou profissional. Trata-se daquele que se sente perfeitamente à vontade sendo “como todo mundo” e que, justamente por isso, não sente necessidade de desenvolver uma vida intelectual própria.
E aqui está o ponto mais perturbador.
O homem-massa não precisa ser ignorante. Pode ser instruído, possuir diploma, ocupar uma posição respeitável e dominar profundamente uma determinada área. Ainda assim, pode permanecer intelectualmente dependente quando abandona o esforço de compreender aquilo que está além de sua especialidade.
O problema, portanto, não é saber pouco. É acreditar que já se sabe o suficiente.
Por que pensar como todo mundo é tão confortável?
Porque pensar de verdade exige esforço.
É muito mais fácil receber uma opinião pronta, encontrar pessoas que concordem conosco e repetir os mesmos argumentos do grupo do que interromper o fluxo, investigar os fatos, reconhecer a própria ignorância e admitir a possibilidade de estar errado.
Ortega percebeu que o homem-massa tende a considerar-se autorizado a opinar sobre qualquer assunto sem ter realizado o esforço necessário para formar uma opinião. A convicção vem antes da investigação.
Hoje, essa característica parece ainda mais familiar.
As redes sociais transformaram a opinião em uma espécie de reflexo: alguém publica uma afirmação, milhares repetem, outros milhares compartilham e, depois de suficientemente repetida, a ideia adquire a aparência de verdade.
Mas popularidade não é demonstração. Repetição não é argumento.
O conforto de pertencer
Existe ainda uma recompensa psicológica no pensamento coletivo: pertencer.
Pensar sozinho pode significar descobrir que aqueles que admiramos estão errados. Pode significar contrariar amigos, familiares ou o próprio grupo político e cultural. Pode significar permanecer em silêncio quando todos parecem ter uma certeza.
É muito mais confortável dizer “todos pensam assim”.
O homem-massa encontra segurança na unanimidade porque ela reduz a necessidade de responder por suas próprias convicções. Se todos acreditam, ele não precisa investigar. Se todos condenam, não precisa julgar. Se todos repetem, não precisa pensar.
É justamente essa passividade intelectual que torna o diagnóstico de Ortega tão atual.
A rebelião começa dentro de nós

A grande provocação de Ortega não é perguntar se fazemos parte de uma multidão.
É perguntar quanto da nossa personalidade realmente nos pertence.
Podemos repetir opiniões que recebemos da televisão, das redes sociais, dos amigos, do partido, da universidade ou do ambiente profissional e ainda acreditar sinceramente que estamos pensando por conta própria.
Talvez a liberdade intelectual comece quando fazemos uma pergunta desconfortável:
“Eu acredito nisso porque examinei a questão ou porque aprendi que era isso que pessoas como eu deveriam acreditar?”
Para Ortega, uma vida verdadeiramente humana não consiste em simplesmente adaptar-se ao ambiente. Exige projeto, esforço, responsabilidade e a disposição de superar a própria comodidade.
E talvez seja justamente aí que esteja a diferença entre viver segundo a própria consciência e apenas acompanhar a multidão.
Pensar sozinho pode ser desconfortável.
Mas existe um preço ainda maior para quem nunca tenta: passar a vida inteira confundindo a própria voz com o eco dos outros.
Até mais!
Tête-à-Tête










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