Como sucessivas ondas que chegam à praia, uma após a outra, as versões contadas ao povo brasileiro por parcelas da elite que frequentemente ditam o tom do debate e escrevem diariamente a narrativa dominante penetraram nas dobras cerebrais daqueles expostos a grandes doses de jornalismo, sobretudo o das grandes redes, reverenciadas por muitos como portadoras da boa-nova. O resultado revela um fenômeno análogo à hipnose coletiva.

Produtos de uma mesma esteira ideológica, da qual saem igualmente enviesados muitos daqueles responsáveis por sua formação, boa parte dos jornalistas de hoje alimenta dinâmicas editoriais que ainda influenciam grande parcela da população, de onde serão pinçados os futuros educadores que, por sua vez, formarão novos quadros, num círculo vicioso, aparentemente sem fim, que vem fragilizando a inteligência nacional, agora pasteurizada. Ponto para Gramsci.

Não fosse pela prolongada simpatia política, que já dura algumas décadas e revela uma simbiose em que determinados interesses não subsistem uns sem os outros, não haveria nada de novo no front. Desde os tempos de Assis Chateaubriand, nos Diários Associados, a imprensa, enquanto instituição econômica e empresarial, tem demonstrado dinâmicas próprias movidas por interesses prioritariamente financeiros. Alia-se ora a um, ora a outro grupo de poder, aberta ou veladamente, segundo conveniências de ocasião. Esteve ao lado do Estado Novo e do Regime Militar, assim como agora defende, com a mesma convicção, as intenções e os atos da ordem vigente, a despeito do quanto elitista, seletiva e cruel ela possa se demonstrar.

Cobriu, com suas câmeras e microfones, os escândalos do mensalão e do petrolão e nos mostrou, ao vivo, o que já não pode ser desvisto por quem permaneceu lúcido: a devolução de bilhões de reais em espécie, os acordos de delação e as confissões de culpa de integrantes da cúpula política, de grandes empresários e de executivos de estatais. Então, apostando em seu alcance e em sintonia com novas interpretações judiciais, passou a nos contar, com ares de indignação, que tudo aquilo não passava de uma armação e que figuras antes centrais nas investigações, agora apresentadas como vítimas, deveriam ser ressarcidas por danos morais e financeiros e restituídas aos seus postos com toda pompa e circunstância. E assim foi feito.

A imprensa de que toda a sociedade precisa e que deve buscar preservar — por seu papel informativo e intelectualmente provocativo e honesto — deixou saudades. Nosso passado ainda lhe serve de referência pela existência de pensadores independentes, articulistas como Otto Maria Carpeaux, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, David Nasser, Carlos Castelo Branco, Sergio Porto, entre tantos outros profissionais do mesmo escol que, a despeito das pressões políticas e econômicas das empresas em que atuavam, possuíam aquilo que hoje falta à maioria de seus pares, embora alguns poucos ainda resistam: estofo cultural, autonomia e compromisso com a verdade.

Como disse Henri Bergson, mesmo que analisemos minuciosamente mil baldes de água do mar, jamais compreenderemos o movimento das marés. Da mesma forma, não compreenderemos o que move os grandes veículos de mídia (assim como certas instâncias da Justiça, do Congresso e de governos) examinando apenas a opinião indignada sobre o escândalo do dia, solenemente esquecido no dia seguinte para dar lugar a outro. É preciso manter uma certa distância das narrativas hegemonicas para que os diversos pontos espalhados aqui e ali, tal como no pontilhismo, comecem a fazer algum sentido. E o resultado estarrece.

Benhur D. Teixeira