O que o Golem tem a ver com a inteligência artificial? Conheça a antiga lenda judaica e descubra por que criação, controle e medo continuam atuais.
O que a inteligência artificial tem em comum com o Golem?
Muito antes de computadores, algoritmos e redes neurais, o homem já imaginava uma criatura capaz de realizar aquilo que ele próprio não conseguia fazer.
Mas havia um problema.
E se a criatura deixasse de obedecer ao criador?
Essa pergunta está no centro da antiga tradição do Golem, uma criatura artificial da tradição judaica que, segundo algumas versões da lenda, poderia ser formada a partir do barro e animada por meio de palavras sagradas. O Golem não era simplesmente um monstro. Era, antes de tudo, uma reflexão sobre o poder de criar algo que pudesse agir em nome de seu criador.
Séculos depois, a inteligência artificial recoloca uma pergunta semelhante diante de nós.
Não porque uma IA seja um Golem — evidentemente não é —, mas porque o desejo humano por criar algo capaz de agir por nós continua existindo.
E, com ele, retorna também o medo.
O Golem: criar vida sem ser Deus
A tradição do Golem possui raízes antigas e desenvolveu-se especialmente na literatura judaica medieval. A versão mais conhecida está associada ao rabino Judah Loew ben Bezalel, o Maharal de Praga, a quem uma tradição posterior atribuiu a criação de um Golem para proteger a comunidade judaica.
A criatura seria feita de barro e receberia vida por meio de fórmulas e inscrições sagradas.
O detalhe mais importante, entretanto, não está na criatura.
Está no criador.
O homem deseja produzir algo que possua força e capacidade suficientes para cumprir sua vontade. Mas, ao criar, assume uma responsabilidade que talvez não consiga controlar.
Essa é a estrutura narrativa que atravessa a história.
Criar é exercer poder. Mas criar também significa assumir o risco de perder o controle sobre aquilo que foi criado.
Da criatura de barro à inteligência artificial
A comparação com a IA começa justamente aqui.
O objetivo de grande parte do desenvolvimento da inteligência artificial é construir sistemas capazes de realizar tarefas que antes dependiam exclusivamente da inteligência humana: reconhecer padrões, produzir textos, analisar imagens, programar, traduzir, fazer previsões e tomar determinadas decisões.
Em outras palavras, queremos construir ferramentas que façam por nós aquilo que antes precisávamos fazer.
O Golem também nasce dessa lógica.
O criador não deseja simplesmente fabricar uma criatura. Deseja delegar a ela uma capacidade.
A diferença é que o Golem pertence ao território do mito, enquanto a inteligência artificial pertence ao da engenharia e da computação.
Mas a pergunta filosófica permanece surpreendentemente parecida:
até onde devemos delegar nossa própria capacidade a uma criação?
O medo não é apenas de que a máquina se revolte
Existe uma versão popular do medo da inteligência artificial segundo a qual o problema seria uma máquina adquirir consciência, tornar-se hostil e decidir destruir seus criadores.
É uma possibilidade típica da ficção científica.
Mas talvez exista um medo mais interessante — e mais realista.
E se não precisarmos perder o controle para nos tornarmos dependentes?
Uma sociedade pode entregar gradualmente suas decisões às máquinas sem que nenhuma máquina precise se rebelar.
Se algoritmos começam a decidir o que vemos, quais informações recebemos, quais produtos nos são apresentados, quem recebe crédito, quais candidatos são selecionados ou quais conteúdos ganham visibilidade, o problema deixa de ser uma criatura que desafia o criador.
É o criador que, voluntariamente, entrega partes de sua autonomia à criatura.
Frankenstein e o Golem
A tradição do Golem também antecipa uma ideia que apareceria posteriormente em Frankenstein, de Mary Shelley: o criador pode descobrir que produzir uma criatura é muito mais fácil do que compreender as consequências de tê-la produzido.
Há uma diferença fundamental entre poder criar e saber controlar.
A tecnologia moderna aumentou extraordinariamente o primeiro poder.
A questão é saber se nossa prudência cresceu na mesma proporção.
O verdadeiro dilema
Talvez a questão mais importante da inteligência artificial não seja:
“A IA vai destruir a humanidade?”
Essa pergunta é dramática, mas pode esconder outra muito mais próxima:
“Quanto daquilo que nos torna humanos estamos dispostos a deixar de fazer por nós mesmos?”
Pensar exige esforço.
Escrever exige esforço.
Lembrar exige esforço.
Escolher exige esforço.
E justamente porque a tecnologia pode reduzir esses esforços, surge uma tentação irresistível: delegá-los.
O perigo talvez não esteja em a criatura tornar-se humana.
Talvez esteja em o humano tornar-se dependente demais da criatura.
O Golem continua entre nós
O Golem é uma história sobre criação, poder e responsabilidade.
A inteligência artificial é uma tecnologia, não uma criatura mística. Ainda assim, ambas nos confrontam com uma antiga ambição humana: criar algo capaz de ampliar enormemente nosso próprio poder.
O problema nunca foi simplesmente criar.
O problema começa quando o criador deixa de perguntar:
“O que posso fazer?”
e passa a perguntar apenas:
“O que posso fazer com aquilo que criei?”
Talvez seja essa a verdadeira lição escondida no Golem.
Não precisamos temer apenas aquilo que nossas criações poderão fazer contra nós.
Precisamos também perguntar o que nós mesmos estaremos dispostos a deixar de fazer por causa delas.
Até mais!
Tête-à-Tête










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