Descubra o que é o impasto e por que Vincent van Gogh transformou pinceladas espessas em movimento, emoção e matéria na pintura.


Há pinturas que parecem querer permanecer na superfície da tela. Outras parecem querer escapar dela.

Quando observamos de perto uma obra de Vincent van Gogh, percebemos algo que uma reprodução digital quase sempre esconde: a tinta não está simplesmente sobre a tela. Ela foi acumulada, arrastada, pressionada e deixada em sulcos e pequenas elevações. A pincelada possui espessura. Possui direção. Possui uma espécie de corpo.

É o impasto.


O que é impasto?

A palavra italiana impasto significa, em sentido amplo, “mistura” ou “massa”. Na pintura, designa a aplicação de tinta em uma camada suficientemente espessa para que as marcas do pincel ou da espátula permaneçam visíveis e produzam uma superfície texturizada.

Ao contrário de uma pintura em que a tinta é espalhada até desaparecer na superfície, o impasto faz questão de mostrar como a tinta foi colocada ali.

A pincelada deixa de ser apenas um meio para representar alguma coisa.

Ela própria passa a fazer parte daquilo que está sendo representado.


Van Gogh e a tinta como matéria

Van Gogh levou essa possibilidade a uma intensidade extraordinária.

Seu uso de grandes quantidades de tinta e pinceladas vigorosas tornou-se uma das características mais reconhecíveis de sua pintura. O próprio Museu Van Gogh registra que o artista trabalhava frequentemente com uma pintura espessa e pastosa, muitas vezes wet-in-wet, aplicando tinta fresca sobre camadas ainda úmidas.

Em vez de esconder o gesto do artista, Van Gogh o tornou visível.

Uma árvore podia ser construída com linhas grossas e nervosas. O trigo podia surgir como uma sucessão de marcas quase táteis. As nuvens podiam transformar-se em curvas de tinta. O céu deixava de ser simplesmente azul: tornava-se uma superfície em movimento.

Na Noite Estrelada (imagem destaque do post), por exemplo, as inúmeras pinceladas curtas e a tinta espessa contribuem para criar a sensação de que o céu está em permanente agitação.

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Detalhe é do canto superior direito (a lua crescente luminosa) da tela A Noite Estrelada
(The Starry Night).

Por que Van Gogh pintava dessa maneira?

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Detalhe de uma flor em tons de azul e violeta pertence à famosa obra Íris (Irises).

Não se tratava simplesmente de uma preferência estética.

Van Gogh estava interessado na capacidade da pintura de expressar uma experiência, e não apenas reproduzir aquilo que os olhos percebiam.

Sua passagem por Paris, a partir de 1886, colocou-o em contato com os impressionistas e neoimpressionistas. A influência dessas experiências contribuiu para que clareasse sua paleta, adotasse pinceladas mais curtas e explorasse de maneira mais livre a aplicação da tinta.

Mas Van Gogh foi além.

A matéria da pintura tornou-se parte de sua linguagem emocional.

Em uma carta de 1888, ele escreveu que desejava usar as cores de maneira mais arbitrária para expressar-se com maior força, em vez de reproduzir exatamente aquilo que tinha diante dos olhos.

A consequência foi uma transformação fundamental: a pincelada deixou de ser invisível.


Quando a pincelada vira movimento

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Detalhe de pinceladas espessas pertence à obra Amendoeira em Flor (Almond Blossoms).

Observe um campo de trigo de Van Gogh.

As pinceladas não apenas representam o trigo. Elas criam a sensação de que o vento atravessa a plantação.

O mesmo acontece com as árvores, as nuvens e os céus. Em Campos de Trigo Verdes, Auvers, por exemplo, a National Gallery of Art destaca as pinceladas espessas e caligráficas que dão à superfície uma energia dinâmica.

Em Chalés de Cordeville, do Museu d’Orsay, a tinta chega a formar verdadeiros sulcos na superfície da tela. As casas, árvores e nuvens parecem submetidas a uma força que distorce seus contornos.

O impasto, portanto, não é simplesmente textura.

É movimento congelado.

Cada pincelada registra uma ação: a direção da mão, a pressão sobre a tela, a quantidade de tinta e a velocidade do gesto.


Van Gogh não inventou o impasto

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Detalhe de redemoinhos no céu Noturno pertence também à obra A Noite Estrelada.

É importante fazer uma distinção.

Van Gogh não inventou a aplicação espessa de tinta. Artistas anteriores já haviam explorado a técnica, e ela aparece, por exemplo, em obras de mestres como Rembrandt. O que Van Gogh fez foi transformá-la em uma linguagem particularmente intensa e pessoal.

Até mesmo Paul Gauguin, seu companheiro no período de Arles, utilizava uma abordagem muito diferente da de Van Gogh: enquanto Gauguin preferia camadas mais finas e uma superfície mais controlada, Van Gogh aplicava grandes quantidades de tinta de maneira muito mais exuberante.

Essa diferença revela algo essencial.

O impasto não é apenas uma técnica. É uma decisão sobre o que a pintura deve ser.

Para Van Gogh, a tela podia conservar o vestígio físico do momento em que o artista a pintou.

Mas o impasto também revela algo maior sobre a própria história da pintura. Quando a pincelada deixa de ser apenas um instrumento para representar a realidade e passa a assumir valor por si mesma, a arte começa a mudar profundamente sua relação com aquilo que pretende representar.

Van Gogh não estava apenas pintando de maneira diferente. Estava participando de uma transformação que levaria a pintura, pouco a pouco, da tentativa de reproduzir o mundo à exploração daquilo que uma pintura poderia ser.

Essa transformação não aconteceu de repente. Foi resultado de séculos de descobertas, rupturas e revoluções no modo de representar o homem, a natureza, a luz, o espaço e a própria realidade. Para compreender esse percurso, vale recuar no tempo e acompanhar a história da arte — desde as primeiras imagens produzidas pelo homem até as rupturas que deram origem à arte moderna.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças da pintura de Van Gogh: a tinta já não precisa desaparecer para que a imagem apareça. A própria tinta passa a fazer parte daquilo que a obra quer dizer.


Da representação à expressão

Talvez seja esse o verdadeiro motivo pelo qual a pintura de Van Gogh continua tão poderosa.

Uma reprodução da Noite Estrelada pode conservar as cores e a composição, mas não consegue reproduzir completamente sua dimensão física. Diante do original, a luz incide sobre as elevações e depressões da tinta, produzindo pequenas sombras e reflexos.

A superfície participa da experiência.

É como se Van Gogh dissesse que uma pintura não precisa apenas mostrar um campo, uma árvore ou um céu.

Ela pode fazer o espectador sentir a energia com que aquilo foi pintado.

E é justamente nesse ponto que o impasto deixa de ser uma simples técnica.

A tinta espessa torna-se gesto.

O gesto torna-se movimento.

E o movimento, finalmente, transforma-se em emoção.


Até mais!

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