Ao ler esse pequeno texto de Otto Maria Carpeaux, você perceberá a sua tremenda erudição literária bem como o nível das materias publicadas em nossos jornais nos idos de 1950. O quanto a nossa cultura, de uma forma geral, decaiu de lá prá cá, é coisa assombrosa e explica, em certa medida, o estado geral de decadência da nossa sociedade.

É tempo de resgatar a nossa alta cultura, e Otto Maria Carpeaux, depois de ter sido esquecido pela nova intelectualidade brasileira, foi trazido à luz novamente pelo Professor Olavo de Carvalho para nos mostrar como fazê-lo. Otto Maria Carpeaux VIVE!

Equipe Tête-à-Tête


Otto Maria Carpeaux | O Jornal , 1955

Num recente inquérito tive de responder à seguinte pergunta: quais são as 20 obras literárias mais importantes, publicadas entre 1900 e 1950?

Seleção dessas sempre é inspirada pelo gosto pessoal. Está sujeita a objeções, por faltar isto ou aquilo. Faltavam na minha resposta, realmente, umas celebridades do dia, divulgadas e desprezíveis, entre as quais não incluo, porém, William Somerset Maugham, autor de excessivo sucesso popular que aprecio muito, apesar de tudo, como um dos maiores contistas.

Mas a limitação ao fatídico número “vinte” obrigou-me a excluir muitos nomes, caros e admiráveis: Claudel e Reverdy, Malraux e EM Forster, Unamuno e Juan Ramón Jiménez, Baroja e Camilo José Cela, Hofmannsthal, Broch e Musil. Excluí o estupendo romancista holandês Vestdijk, porque pouco acessível. Sacrifiquei meus queridos italianos: Svevo, Pavese, Bacchelli, Moravia, Pratolini, Buzzati. Resisti à tentativa de incluir Búnin, embora o elogio a esse russo exilado já me tenha custado muito, censuras de “crítico fascista” etc., e hoje poderia citar que o mesmo Búnin foi, no recente II Congresso de Escritores Soviéticos em Moscou, solenemente reabilitado. E aos admiradores exaltados de Graham Greene, se estranharem a ausência do seu nome, permitam-me lembrar que fui o primeiro, no Brasil, a escrever artigo sobre ele. Mereceu ser incluído entre os 20 assim como outros mereceriam; mas tinha de ser só 20…

Pelo mesmo motivo exclui todos os nomes brasileiros. Cada um tem obrigação de conhecer sua própria literatura melhor que as outras. Só de obras brasileiras importantes, publicadas entre 1900 e 1950, existem mais que vinte. Excluindo-as, acreditava-se ganhar a possibilidade de ser mais justo com as outras e diminuir o risco da censura por ter excluído da lista este ou aquele grande nome. Mas enganei-me redondamente.

Ninguém censurou as omissões. Aconteceu o contrário. Disse-me até um bom amigo: “Você organizou uma lista de obras que ninguém leu e conhece; fez uma exibição de cultura e esnobismo”… Não me defendi. Mas agora quero defender a causa da cultura literária.


Como ficou a lista? Ei-lá:

1) Rilke ( Novos poemas ); 2) Kafka ( O Processo ); 3) Thomas Mann ( Doutor Fausto ); 4) Doeblin ( Berlim Alexanderplatz ); 5) Montale ( Ossi di Seppia ); 6) Pirandello ( Novelle per un anno ); 7) Antonio Machado ( Campos de Castilla ); 8) Jorge Guillén ( Cántico ): 9) Pérez de Ayala ( Belarmino y Apolonio ); 10) Apollinaire ( Alcools ); 11) Valéry ( Variétés ); 12) Camus ( La Peste ); 13) Yeats ( A Torre ); 14) Conrado ( Nostromo ); 15) Henry James ( Retrato de uma Senhora); 16) Joyce ( Ulisses ); 17) Hemingway ( Adeus às Armas ); 18) Blok ( Os Doze ); 19) Sologub ( O pequeno demônio* ); 20) Fernando Pessoa ( Poesias ).

O futuro não ratificará, provavelmente, um ou outro desses nomes. Nossa miopia de contemporâneos costuma ser otimista, a respeito, embora nem sempre (parece-me, por exemplo, que Sartre vale muito mais do que a má vontade generalizada, de hoje, quer admitir). Reconhecendo minha miopia, achei preferível a coragem de omitir deliberadamente alguns nomes. Não apenas de celebridades efêmeras como Koestler e Orwell (a fama deste último, sobretudo, se me afigura incompreensível). Mas houve e há neste meio século escritores realmente grandes que me parecem um pouco supervalorizados: Gide, DH Lawrence, Faulkner. Talvez o futuro chegue a achar o mesmo com respeito (com muito respeito!) a Proust ; decerto chegará a O’Neill .

Não fui, aliás, o único perguntado, naquele inquérito. Sabia que os nomes de Proust e Gide, O’Neill e Faulkner apareceriam devidamente nas listas organizadas por outros; e isto me tranquiliza a consciência.

Ouso acrescentar, a essas omissões, o nome daquele que hoje é considerado como o maior poeta de língua inglesa deste século: TS Eliot. Pois ele próprio considera como o maior poeta de língua inglesa deste século um outro: William Butler Yeats. E assim já está justificado um dos vinte nomes da lista.

Há mais outros nomes, nessa lista, contra os quais ninguém, provavelmente, levantará ojeções: Kafka, Antonio Machado, Conrad, Henry James, Hemingway, Blok, Joyce, Camus. E já estão 9 dos 20, justificados.

Um pouco esquecidos estão hoje Pérez de Ayala e Doeblin, autores de dois dos romances mais representativos deste meio século. Só é preciso lembrá-los, para chegar à casa dos 11. Já é a maioria.

Há na lista, mais quatro nomes incontestados, espero; mas não os acompanham os títulos de suas obras mais famosas, e sim outros títulos. A esse respeito, não adianta discutir: o gosto pessoal e os registrados pessoais nem sempre são explicáveis.

As Elegias de Duíno talvez sejam a obra mais importante de Rilke; mas os Novos poemas são a mais perfeitos e menos profundos. A montanha mágica é um romance de grande importância. Mas o Doutor Fausto é romance de importância transcendental. Nas Novelle per un anno encontre-se os núcleos de quase todas as peças de Pirandello; e o contista é maior que o dramaturgo. Também acredito firmemente que o futuro preferirá a prosa de Valéry à sua poesia; pois essa prosa tem todas as qualidades de poesia e mais uma outra.

Em todos esses casos deu-se a preferência a uma obra menos conhecida de um autor muito conhecido. Mas em outros casos preferi autores menos conhecidos a muito conhecidos, para firmar uma assinatura. Ungaretti , e, entre os poetas italianos contemporâneos, o mais apreciado entre nós; e merece. Mas Eugenio Montale merece igualmente, e é preciso difundir-lhe o nome.

Muito se conhece no Brasil o notável poeta negro cubano Nicolás Guillén; muito menos o espanhol Jorge Guillén, e este não é notável, mas sim um dos maiores poetas deste século, em qualquer língua.

Enfim, foi grata a oportunidade de homenagear o querido Apollinaire, sacrificando, em compensação, o nome do “faiseur” charlatanesco Cocteau que lhe usurpou o lugar.

Restam só dois nomes; e um deles é realmente um “ilustre desconhecido”. Mas entre os romancistas russos deste meio século não consegui, depois de muita hesitação, maior que Fiódor Sologub. Seu romance O pequeno demônio, publicado em 1907, é uma obra cujo personagem principal, Peredonov, forneceu um substantivo à língua russa: a peredonovchtchina está no mesmo nível da oblomovchtchina e da karamasovchtchina. No resto, é preciso ler a obra. Não a leram? Então leiam! Existe em traduções para o inglês e o francês.

O outro nome é o de Fernando Pessoa. A exclusão, já motivada, dos brasileiros não é motivo para excluir todos os de língua portuguesa. Cada vez mais me parece Fernando Pessoa um poeta de grandeza extraordinária. Não desconheço sua forte influência na poesia brasileira atual. Mas nunca será bastante lido e relido. Releio-o sempre.

Contra meu hábito e muito a contragosto apareceram quase todos os verbos, neste artigo, na primeira pessoa do singular. Para desculpar essa falta de modéstia, só posso alegar uma vantagem muito relativa: foi uma profissão de fé. “Dixi, et salvavi animam meam”.

Falei assim, porque levo a sério a literatura e porque desejo que seja levada a sério.

Nota
* “O pequeno diabo”: O diabo mesquinho (trad. Moissei Mountian, São Paulo, Kalinka, 2008).

O Jornal , Rio de Janeiro, 4 set. 1955, seção “Revista”, pp. 1–2.


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête