Descubra as semelhanças entre a cultura do cancelamento e as perseguições medievais. Uma análise histórica, filosófica e psicológica sobre intolerância, julgamento público e poder das multidões.
Vivemos na era da internet, da inteligência artificial e da comunicação instantânea. Nunca foi tão fácil compartilhar conhecimento, dialogar com pessoas de diferentes culturas ou acessar praticamente toda a produção intelectual da humanidade.
Paradoxalmente, também nunca foi tão simples destruir uma reputação em poucas horas.
Basta uma frase retirada do contexto, uma opinião impopular ou um comportamento considerado inadequado para que milhares — às vezes milhões — de pessoas iniciem uma verdadeira cruzada virtual. Empresas rompem contratos, amigos desaparecem, empregos são perdidos e a pessoa passa a carregar um estigma que pode durar anos.
Esse fenômeno ficou conhecido como cultura do cancelamento.
Embora pareça um produto das redes sociais, ele talvez seja apenas uma nova versão de um comportamento profundamente humano: a necessidade de encontrar culpados, puni-los publicamente e reafirmar os valores do grupo através do exemplo.
Quando olhamos para a Idade Média, percebemos algo desconfortável.
Mudaram as ferramentas.
Mas será que mudaram os mecanismos?
O tribunal mudou de lugar
Durante a Europa medieval, especialmente entre os séculos XIII e XVII, acusações públicas podiam significar o fim da vida social — e muitas vezes da própria vida.
Acusações de heresia, feitiçaria ou blasfêmia raramente dependiam apenas de provas concretas.
O julgamento era profundamente influenciado pela opinião coletiva.
Quem contrariava os costumes, a religião dominante ou o poder estabelecido tornava-se suspeito.
Hoje não existem fogueiras em praças públicas.
Existe o algoritmo.
Existe o compartilhamento em massa.
Existe a viralização.
A praça medieval foi substituída pelas redes sociais.
A multidão continua presente.
A diferença é que agora ela cabe na tela de um celular.
O medo continua sendo um poderoso instrumento
Um dos motores das perseguições medievais era o medo.
Medo da heresia.
Medo do pecado.
Medo da influência demoníaca.
Medo do desconhecido.
Em momentos de crise, sociedades frequentemente procuram responsáveis pelos seus problemas.
A história está repleta de exemplos.
Durante epidemias, guerras ou crises econômicas, minorias costumam tornar-se alvo da ira popular.
A psicologia social mostra que esse comportamento permanece praticamente inalterado.
Quando grupos compartilham forte emoção coletiva, tornam-se mais propensos a agir impulsivamente e a reduzir a complexidade dos fatos a narrativas simples: existe um culpado e ele precisa ser punido.
As redes sociais aceleram exatamente esse mecanismo.
A velocidade substituiu a reflexão
Uma diferença fundamental entre a fogueira medieval e o cancelamento moderno está no tempo.
Na Idade Média, uma acusação podia levar semanas ou meses para se espalhar.
Hoje ela percorre o planeta em poucos minutos.
A velocidade reduz drasticamente o espaço para investigação.
Poucos perguntam:
- O vídeo está completo?
- A frase foi retirada do contexto?
- Houve edição?
- Existe outra versão dos fatos?
Em vez disso, muitas pessoas compartilham imediatamente, motivadas pela indignação.
A recompensa psicológica é instantânea.
Participar da condenação transmite a sensação de estar do lado certo da história.
A necessidade humana de pertencer
Os seres humanos são animais sociais.
Nossa sobrevivência durante milhares de anos dependeu da aceitação pelo grupo.
Ser excluído significava enorme risco.
Esse mecanismo evolutivo permanece ativo.
Cancelar alguém também comunica algo sobre quem cancela.
É uma forma de dizer:
“Eu pertenço ao grupo dos corretos.”
Por isso, muitas campanhas de cancelamento crescem rapidamente.
Não basta permanecer neutro.
Espera-se uma manifestação pública.
O silêncio passa a ser interpretado como cumplicidade.

O desejo de purificação moral
O historiador francês René Girard desenvolveu uma das teorias mais interessantes para compreender esse fenômeno.
Segundo ele, sociedades frequentemente reduzem conflitos internos elegendo um “bode expiatório”.
Toda tensão coletiva é concentrada em um indivíduo.
Após sua exclusão, o grupo experimenta uma sensação temporária de paz.
Esse padrão aparece em diversas culturas e épocas.
Bruxas.
Hereges.
Estrangeiros.
Minorias.
Intelectuais.
Artistas.
Hoje, celebridades, influenciadores e pessoas comuns podem ocupar esse mesmo papel.
O mecanismo psicológico permanece surpreendentemente semelhante.
A internet nunca esquece
Na Idade Média, uma execução encerrava a história.
Na internet, ela permanece registrada.
Prints.
Vídeos.
Notícias.
Memes.
Comentários.
Motores de busca.
Mesmo anos depois, o episódio pode reaparecer.
Isso cria uma forma inédita de punição.
Não apenas pública.
Mas permanente.
Cancelar é fazer justiça?
Essa talvez seja a pergunta mais difícil.
Nem todo cancelamento nasce da intolerância.
Em muitos casos, denúncias públicas revelam crimes reais, abusos ou comportamentos graves que antes permaneciam ocultos.
As redes sociais deram voz a vítimas que durante décadas permaneceram silenciadas.
Isso representa um avanço importante.
O problema surge quando a investigação é substituída pela condenação imediata.
Quando não existe espaço para defesa.
Quando o erro passa a ser considerado imperdoável.
Quando pessoas deixam de ser vistas como seres humanos complexos e tornam-se apenas o pior momento de suas vidas.
A ilusão da superioridade moral
Existe outro aspecto curioso.
Quem participa do cancelamento frequentemente acredita estar acima daquele que está sendo julgado.
Entretanto, a psicologia demonstra algo diferente.
Todos somos capazes de cometer erros.
Todos somos influenciados pelo contexto.
Todos somos contraditórios.
A diferença é que alguns erram diante de milhões de pessoas.
Outros erram apenas diante de poucos.
Essa consciência deveria produzir humildade.
Nem sempre produz.
O papel dos algoritmos
As plataformas digitais não criaram a intolerância.
Mas aprenderam a lucrar com ela.
Conteúdos que despertam indignação geram mais comentários.
Mais compartilhamentos.
Mais tempo de permanência.
Mais receita publicitária.
A economia da atenção favorece emoções intensas.
Raiva vende.
Escândalo gera cliques.
Polêmica mantém usuários conectados.
Nesse ambiente, a cultura do cancelamento encontra condições ideais para crescer.

Existe saída?
A história oferece uma resposta interessante.
As sociedades mais livres não são aquelas onde ninguém erra.
São aquelas que conseguem distinguir justiça de vingança.
Investigação de linchamento.
Responsabilidade de humilhação.
Crítica de destruição.
Isso exige maturidade institucional e também maturidade individual.
Nem toda acusação merece aplausos imediatos.
Nem toda defesa significa concordância.
Nem toda divergência representa ameaça.
A liberdade depende justamente da capacidade de conviver com opiniões desconfortáveis.
O que realmente mudou em 700 anos?
Talvez menos do que gostaríamos de admitir.
A fogueira deu lugar às hashtags.
Os inquisidores tornaram-se usuários comuns.
As praças públicas transformaram-se em timelines.
As tochas foram substituídas por smartphones.
Mas a necessidade humana de encontrar culpados, reforçar identidades coletivas e demonstrar virtude diante da comunidade continua extraordinariamente semelhante.
A tecnologia mudou.
A natureza humana, muito menos.
Reconhecer isso talvez seja o primeiro passo para impedir que os erros do passado continuem apenas mudando de cenário.
Conclusão
A cultura do cancelamento é um fenômeno complexo. Ela pode funcionar como instrumento legítimo de responsabilização quando expõe abusos reais, mas também pode transformar-se em uma forma moderna de perseguição coletiva, na qual o julgamento antecede a investigação e a condenação substitui o diálogo.
A comparação com as fogueiras medievais não significa afirmar que ambos os contextos sejam idênticos. As consequências jurídicas, políticas e sociais são profundamente diferentes. Ainda assim, ambos revelam um traço persistente da condição humana: a tendência de dividir o mundo entre puros e impuros, justos e culpados, aliados e inimigos.
Talvez o verdadeiro avanço civilizatório não esteja apenas em desenvolver novas tecnologias, mas em aprender a exercer prudência, empatia e senso crítico antes de participar da próxima condenação pública.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é a cultura do cancelamento?
É um fenômeno social em que indivíduos ou organizações sofrem boicotes, críticas massivas e perda de reputação após atitudes ou declarações consideradas ofensivas ou inadequadas.
A cultura do cancelamento é igual à Inquisição Medieval?
Não. Os contextos históricos são diferentes, mas ambos compartilham mecanismos de condenação pública, pressão coletiva e exclusão social.
As redes sociais criaram o cancelamento?
Não. Elas potencializaram um comportamento humano muito mais antigo, tornando a condenação pública mais rápida e ampla.
Toda forma de cancelamento é injusta?
Não. Em muitos casos, denúncias públicas ajudam a revelar abusos e responsabilizar pessoas poderosas. O problema surge quando o julgamento acontece sem investigação ou possibilidade de defesa.
Como evitar participar de um linchamento virtual?
Verificando informações, buscando diferentes versões dos fatos, evitando compartilhar conteúdos impulsivamente e lembrando que pessoas são mais complexas do que um único episódio.
Referências
- GIRARD, René. O Bode Expiatório.
- ECO, Umberto. História da Feiura.
- ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo.
- LE BON, Gustave. Psicologia das Multidões.
- BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida.
- HAIDT, Jonathan. A Mente Moralista.
- FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.
- BURKE, Peter. A Cultura Popular na Idade Moderna.
Até mais!
Tête-à-Tête










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