Otto Maria Carpeaux | O Jornal , 1944

Sugerido por Carpeaux nas décadas de 1940–1960, Escapade (1923), da americana Evelyn Scott, será enfim publicado — neste mês, pela Versal Editores. — “ Escapade é, pelo menos para leitores brasileiros ”, diz o crítico, “ um livro único, incomparável: é um clássico nosso ”.

Não sei quantos leitores encontraram, nos próprios Estados Unidos, a romancista Evelyn Scott. Mas é certo que a sua obra não foi divulgada no Brasil, embora os leitores brasileiros tenham motivos especiais para darem atenção a essa escritora, cuja obra representa mais do que uma mera curiosidade.

Não quero afirmar que Evelyn Scott seja realmente uma grande escritora. Os romances bastante numerosos que escreveu desde 1920 — The Narrow House, Narcissus, The Golden Door, Migrations, The Wave, A Calendar of Sin, e outros, até Bread and a Sword — demonstram a todos um grande talento narrativo, ao qual falta, porém, não sei que último ponto de perfeição: e não apenas de perfeição literária, mas também de perfeição humana. Evelyn Scott é uma escritora de grande energia mental, às vezes poderosa; e, contudo, carece de vida. Dá antes da construção do que vida. Ainda mais do que Sherwoood Anderson e Eugene O’Neill, Evelyn Scott aderiu incondicionalmente à psicanálise: nos complexos que Freud revelou, a escritora procura os motivos psicológicos das suas personagens, e o resultado parecido-se a uma exemplificação das teorias do grande psicólogo vienense.

Existe, porém, um livro de Evelyn Scott em que não se sente aquela fraqueza: é o seu romance autobiográfico Escapade, aliás um dos seus primeiros livros. Evelyn Scott pertence, pessoalmente, ao número bastante grande daqueles escritores que, movidos por uma poderosa experiência vital, atingem numa narração autobiográfica os cumes da arte, para nunca mais depois encontrar outra emoção tão forte e outra expressão tão incisiva como foram aquelas primeiras. Quanto ao ambiente literário, Evelyn Scott pertence à corrente americana de 1920 que se revolta contra o puritanismo, contra as cadeias da proteção social e, sobretudo, contra a hipocrisia puritana com respeito às questões sexuais. Em muitos escritores daquela época, a rebelião contra o puritanismo não passou duma brincadeira juvenil, dum boemismo efêmero. Em Evelyn Scott não. Ela realmente viveu aquela revolução literária e moral, viveu-a como experiência dura. Aos vinte anos de idade, fugiu da família, fugiu em companhia dum artista que, por ela, abandonou a própria família. Fugiu com ele para um país longínquo onde, durante anos, sofria as privações mais duras num ambiente incompreensivo que lhe pesava impenetrável. Nessa situação, Evelyn Scott deu à luz um filho; e são os sentimentos e pressentimentos duma mulher grávida, nunca antes revelados com tanta franqueza numa obra literária, que constitui, por assim dizer, o corpo do romance autobiográfico Escapar .

“No fundo aquele espelho fantástico reconhecem-se os traços da realidade brasileira, a natureza trópica e a realidade social.”

Ora, o país para o qual Evelyn Scott escapou e em que se passa Escapade, é o Brasil. Dum romance de introspecção intensíssima e grosseira, como é Escapade, ninguém espera as qualidades de realismo fotográfico nem sequer a fidelidade subjetiva dum diário de viagem. Escapade não é um depoimento sobre o Brasil, e quem pretende saber como o Brasil parece a uma estrangeira de alta inteligência, abrirá outros livros. O Brasil de Escapade não é o Brasil que nós outros usamos. É um espelho fantástico da mente perturbada duma mulher em situação desesperada, duma revolucionária que enfrenta com bravura admirável as conseqüências fatais de sua atitude rebelde. Contudo, no fundo daquele espelho fantástico reconhecem-se os traços da realidade brasileira, a natureza trópica e a realidade social. Deste modo, Escapade é, pelo menos para os leitores brasileiros, um livro único, incomparável: não é uma transformação elogiada nem uma transformação odiosa da verdade brasileira, mas uma transfiguração artística. Alguns raros críticos norte-americanos consideram Escapade como livro clássico da literatura americana. Parece que a grande maioria dos críticos e leitores americanos rejeitam esse julgamento. Talvez com razão: Escapade é antes de um clássico nosso.

Otto Maria Carpeaux, ‘Mais que uma curiosidade’. O Jornal , Rio de Janeiro, 30 mar. 1944.


Até mais!

Equipe Tête-à-Tête