Descubra como a língua alemã e as barreiras linguísticas influenciaram a escrita de Franz Kafka, transformando o ato de narrar em um exercício de poder e mistério.

Em anúncios de livros novos, Franz Kafka aparece, às vezes, como “escritor tcheco” ou “escritor tchecoslovaco”. Em conseqüência disso, muita gente acredita que as obras do romancista foram escritas em língua tcheca. Há isso um equívoco e, como vamos ver, até dois equívocos. Primeiro: as obras de Franz Kafka foram escritas em língua alemã, a língua materna do escritor. Conforme os conceitos da Europa ocidental e de toda a América, a nacionalidade política e a nacionalidade linguística coincidem: um escritor francês é sempre um súdito francês, escrevendo em língua francesa; um escritor argentino é um súdito argentino, escrevendo em língua castelhana etc. etc. Mas já um escritor belga pode ser escritor em língua francesa ou em língua holandesa (flamenga), enquanto uma língua belga não existe. 

Na Europa central e ocidental, onde todos os Estados se compõem duma porção de nações com línguas diferentes, este último caso é o mais frequente. Um escritor suíço pode empregar as línguas alemã, francesa, italiana ou reto-romana. Na Tchecoslováquia viveram, aproximadamente, 10.000.000 de tchecoslovacos, 3.000.000 de alemães, e muitos húngaros, poloneses e outros. Quer dizer que entre os escritores de nacionalidade política tchecoslovaca havia vários de língua alemã; e entre estes se encontra Kafka.

“A linguagem das repartições públicas, dos tribunais e do Exército era incompreensível aos verdadeiros alemães”

Surge agora ou outro equívoco: Franz Kafka seria um escritor alemão? Tampouco não é, e por vários motivos. Kafka era judeu de nascimento e, embora abraçando idéias religiosas alheias, sempre se declarava sionista, isto é, judeu de nação. Além disso, vivendo num ambiente escravo, foi fortemente influenciado pelo espírito tcheco e russo. Enfim, Kafka foi educado na língua alemã, e os grandes clássicos alemães sempre os seus modelos literários. Contudo, nem sequer linguisticamente é Kafka um escritor alemão.

Kafka viveu de 1883 a 1924. Quer dizer, durante a maior parte da sua vida, até 1918, a sua terra, a Boêmia, era uma província da Monarquia de Áustria, e Praga, a sua cidade natal, era a segunda cidade do Império . A língua que os austríacos de língua materna alemã falam, difere tão essencialmente da língua dos alemães do Reich que estes nem entendem os diversos dialetos “austríacos”. Entre populares alemães e austríacos, uma conversa é quase impossível. Os escritores austríacos sempre se esforçaram por escrever em alemão correto, “clássico”. Mas nunca compreendiam completamente, porque as formas gramaticais e sintáticas do uso coloquial e familiar se introduziram imperceptivelmente. 

Em textos que um escritor austríaco acreditava, os alemães do Reich sempre descobrindo palavras esquisitas, solecismos e locuções incompreensíveis. A linguagem de Kafka está cheia de tais “austríacos”, que não são “erros”, mas sinais duma herança histórica e duma composição étnica diferente. Em dois outros escritores “tchecoslovacos”, ambos também naturais de Praga, em Rainer Maria Rilke e Franz Werfel, encontram-se os mesmos “austriacismos” em abundância. Mas o caso de Kafka apresenta umas particularidades mais.

“E usava aquela linguagem para caracterizar os seus personagens, sobretudo naquele romance que se passa no ambiente dos tribunais”

A população alemã de Praga era uma pequena minoria, constítuida principalmente de funcionários públicos, oficiais, professores e judeus. Todos eles acomodados a uma classe que se encontrava em todas as províncias do grande império, dispersos entre os alemães, tchecos, poloneses, italianos, húngaros, croatas, romenos e não sei quantos outros. Aquela classe era, por assim dizer, a classe “oficial” dos Habsburgos, composta de famílias e homens descendentes duma mistura de todas aquelas nações, e todos eles mais ou menos desnacionalizados.

Na repartição pública, no tribunal, na caserna, no comércio interprovincial, usavam a língua alemã, não como língua da nação alemã, mas como uma espécie de “língua geral”, comum a todas as nações austríacas. Não era o alemão de Goethe. Era um alemão misturado com expressões eslavas, húngaras, italianas, latinas. Especialmente, a linguagem das repartições públicas, dos tribunais e do Exército era incompreensível aos verdadeiros alemães. Ora, Kafka permanece em vários sentidos classe “inter-austríaca”: como natural de Praga, como judeu, e como funcionário público. E usava aquela linguagem para caracterizar os seus personagens, sobretudo naquele romance que se passa no ambiente dos tribunais e das repartições públicas: no Processo .

Para traduzir as obras de Kafka, é preciso, além do conhecimento perfeito da língua alemã, o conhecimento da sua variante austríaca. Eu mesmo, que conheço intimamente aquele ambiente hoje desaparecido, estou encontrando dificuldades consideráveis, traduzindo o Processo, tradução da qual, há meses, o Instituto Nacional do Livro me incumbiu. E não se deve pensar que se trata apenas duma cor local linguística. Trata-se de mais. O estilo de Kafka parece muito simples, “clássico”. 

Mas traduzidas assim, em uma dimensão só, as obras perderiam a dimensão da profundidade. Já conheci pessoas que consideraram o Processo, essa grandiosa visão alegórica dos destinos humanos, como romance dum erro de Justiça: outros diriam até “romance policial”. A verdade é que Kafka se utiliza dessa linguagem artificial e ambígua para dar aos seus romances a multiplicidade dos aspectos em profundidade, o elemento estranho, esquisito, fantástico. É preciso traduzir isso também; enfrentar a verdadeira dificuldade, faz parte da consciência profissional do tradutor.

Otto Maria Carpeaux , ‘A linguagem de Kafka’, O Jornal , Rio de Janeiro, 27 jan. 1944, pág. 7.

Ferdinand Brütt, “ Diante dos juízes” (séc. XIX)

Se Kafka nos apresenta o labirinto de uma linguagem que separa, a filosofia dialógica nos oferece a ponte. Para compreender como a palavra pode transitar do isolamento burocrático para a construção histórica, vale explorar como Eugen Rosenstock-Huessy conecta a gramática social à responsabilidade humana e à vida em comunidade.

Até mais!

Equipe Tête-à-Tête