Leon Tolstói, um dos maiores expoentes da literatura russa do século XIX, autor de obras imortais como Guerra e Paz e Anna Kariênina, dedicou-se, no final de sua vida, a reflexões profundas acerca da moral, da religião e do papel do homem no mundo. É nesse contexto que surge O Que É Arte?, publicado em 1898, fruto de mais de uma década de meditação e de um processo de reavaliação pessoal que marcou sua maturidade intelectual.

Neste ensaio, Tolstói busca responder à pergunta que dá título à obra, afastando-se das concepções estéticas tradicionais que identificavam a arte unicamente com a beleza. Para o escritor, a verdadeira arte não se limita a agradar aos sentidos ou provocar deleite estético; ela deve, antes de tudo, comunicar sentimentos sinceros e universalmente compreensíveis, capazes de unir os homens em torno da fraternidade e da verdade. Assim, rejeita as produções herméticas e elitistas, inacessíveis ao povo, que, segundo ele, haviam se tornado predominantes na Europa de seu tempo.

Com rigor e veemência, Tolstói não hesita em criticar nomes consagrados, como Wagner, Beethoven e Baudelaire, acusando-os de produzir obras destinadas a uma elite cultivada, desconectada das necessidades espirituais da humanidade. Para ele, a arte autêntica deve ser simples e clara, semelhante às narrativas bíblicas ou às canções populares, de modo que qualquer pessoa, independentemente de sua instrução, possa compreender e partilhar da emoção transmitida.

Ao longo do texto, o autor concebe a arte como um “órgão espiritual” da humanidade, incumbido de promover o bem e a harmonia. Sua função não é enaltecer o virtuosismo técnico nem servir a caprichos individuais, mas comunicar valores que conduzam à elevação moral e à união entre os homens. Nesse sentido, Tolstói rejeita a ideia de que a crítica especializada deva mediar o contato entre a obra e o público, pois acredita que a arte verdadeira se explica por si mesma.

A leitura de O Que É Arte? provoca, por vezes, desconforto. Sua rigidez moral e a severidade de seus juízos desafiam o leitor a confrontar suas próprias concepções sobre estética e cultura. Contudo, é justamente esse caráter provocativo que torna o livro uma obra indispensável para quem deseja compreender a relação entre arte, moralidade e sociedade. Em tempos de produção cultural fragmentada e frequentemente voltada ao consumo rápido, a voz de Tolstói ecoa como um apelo à autenticidade e ao compromisso ético do artista.

Assim, O Que É Arte? permanece como um texto de valor incontestável, não apenas pela clareza e força argumentativa, mas também pela coragem de interrogar os fundamentos sobre os quais se ergue a criação artística. Trata-se de uma leitura que instiga a mente e inquieta o espírito, cumprindo, de certo modo, aquilo que o próprio Tolstói exigia da arte: ser um elo vivo entre os homens, capaz de despertar neles o mais elevado sentimento de comunhão.


Até mais!

Tête-à-Tête