No cenário da dramaturgia clássica francesa, poucos nomes brilham com tanto destaque quanto Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière (1622–1673). Autor, ator e diretor de teatro, ele foi um dos principais representantes da comédia de costumes no século XVII, deixando um legado que influenciaria profundamente a literatura e o teatro europeus. Dentre suas primeiras obras de sucesso, destaca-se “As Preciosas Ridículas” (Les Précieuses ridicules), estreada em 1659.
Trata-se de uma comédia em um ato, escrita em prosa, que se tornou um marco no teatro francês por sua crítica mordaz às afetações sociais e literárias da época. Ao ridicularizar o preciosismo — uma tendência de linguagem e comportamento excessivamente refinados, principalmente entre as mulheres da aristocracia parisiense —, Molière inaugura um estilo que o tornaria célebre: o da comédia como espelho e crítica da sociedade.
Contexto histórico e social
A França do século XVII vivia sob o absolutismo de Luís XIV, o Rei Sol, cuja corte em Versalhes ditava os modos, a moda e os valores da nobreza e da alta burguesia. Nesse ambiente, surgiram os salões literários — encontros promovidos principalmente por mulheres da elite para discutir poesia, filosofia, literatura e etiqueta. Embora esses espaços tenham sido importantes para a cultura, acabaram gerando também uma forma exagerada de refinamento, conhecida como preciosismo.
O preciosismo implicava não apenas linguagem rebuscada e maneirismos no falar e no agir, mas também uma certa idealização do amor, da arte e do papel da mulher na sociedade. Com o tempo, esse movimento passou a ser visto como excessivo, superficial e até ridículo. É esse o alvo da crítica de Molière em Les Précieuses ridicules.
Enredo da peça
A trama de As Preciosas Ridículas é simples, mas engenhosamente construída para destacar os defeitos que pretende satirizar.
Gorgibus, um burguês provinciano, deseja casar sua filha Magdelon e sua sobrinha Cathos com dois jovens de boa posição, La Grange e Du Croisy. No entanto, as moças rejeitam os pretendentes, considerando-os vulgares e sem refinamento. Criadas na província, elas desejam o tipo de homem “espiritual”, idealizado nos salões preciosistas — poetas, galantes, cheios de metáforas e cortesias.
Ofendidos, os dois rapazes decidem vingar-se com a ajuda de seus criados. Enviam dois serviçais — Mascarille e Jodelet — disfarçados de nobres, que se apresentam como representantes da alta sociedade parisiense. As moças, deslumbradas com os modos afetados dos supostos aristocratas, se rendem ao jogo. A comédia se desenrola até que o engano é revelado, expondo o ridículo das jovens e provocando gargalhadas e reflexões no público.
Crítica ao preciosismo e à falsa erudição
A principal sátira da peça recai sobre o preciosismo artificial, que substitui a sinceridade pelo exibicionismo cultural. Magdelon e Cathos não querem viver o amor, mas representar o amor idealizado dos romances. Não se interessam por pessoas reais, mas por personagens criados pela literatura cortesã.
A linguagem que utilizam é afetada, cheia de eufemismos, metáforas e citações literárias. Um beijo não é apenas um beijo; é “o selo de um pacto sentimental sublime”. Essa linguagem serve como máscara para disfarçar a banalidade da realidade cotidiana. Molière revela, com isso, como o uso excessivo da forma pode esvaziar o conteúdo.
Ao criar personagens como Mascarille, que representa o falso nobre com tanto exagero quanto charme, o autor inverte os papéis sociais e mostra que, por trás das aparências, há apenas vaidade e tolice. A crítica é direta: mais vale um homem honesto e simples do que um idiota com linguagem rebuscada.
Construção cômica e linguagem
As Preciosas Ridículas foi escrita em prosa, o que foge à tradição dos versos alexandrinos da comédia clássica. Essa escolha não é aleatória: a prosa aproxima os personagens do cotidiano e intensifica o efeito cômico. A naturalidade do diálogo contrasta com o artificialismo das personagens femininas, reforçando sua afetação.
O humor surge do contraste entre expectativa e realidade: as moças esperam príncipes refinados e recebem criados disfarçados; querem declarações poéticas e ouvem absurdos disfarçados de sofisticação. O público ri não apenas da situação, mas do tipo social representado.
A peça explora também o recurso da farsa, herança da tradição popular medieval. Os criados, mais espertos que os patrões, se aproveitam da ingenuidade alheia. O uso do disfarce, da reviravolta final e do escárnio direto ao público são técnicas que Molière herdou da comédia dell’arte italiana e adaptou ao contexto francês.
A recepção da peça e seus efeitos
Estreada no Petit-Bourbon com a trupe de Molière, As Preciosas Ridículas foi um sucesso imediato. A crítica ao preciosismo caiu como uma bomba no meio literário parisiense, gerando polêmica entre os frequentadores dos salões e os defensores da linguagem clássica.
Para muitos, a peça foi um gesto corajoso de desmascaramento: Molière não atacava a cultura, mas sua caricatura. Ele defendia a naturalidade, a moderação e a verdade nas relações sociais, combatendo a hipocrisia. Ao rir das preciosas, o público ria de si mesmo — especialmente aqueles que tentavam parecer mais cultos do que realmente eram.
A peça marcou o início do grande sucesso de Molière, que em poucos anos se tornaria o dramaturgo oficial da corte de Luís XIV, apresentando comédias que iam da crítica social à sátira moral, sempre com humor inteligente.
Personagens e simbolismos
- Magdelon e Cathos representam o desejo de ascensão social por meio do refinamento. São o símbolo da classe média que aspira à nobreza, não por mérito, mas por aparência.
- Mascarille e Jodelet, criados travestidos de nobres, mostram a superficialidade dos códigos sociais: basta o disfarce para convencer as moças.
- Gorgibus, o velho burguês, simboliza o senso prático e o embate entre a tradição e os novos modismos urbanos.
- La Grange e Du Croisy são os “bons partidos” rejeitados por serem reais demais para um ideal falso.
Esses tipos sociais continuam reconhecíveis mesmo séculos depois, o que confere universalidade à comédia.
Atualidade da crítica de Molière
Mais de 350 anos após sua estreia, As Preciosas Ridículas continua atual. Em tempos de redes sociais, onde a imagem muitas vezes vale mais que a substância, a crítica de Molière ressoa fortemente. O desejo de parecer culto, sofisticado ou exclusivo se manifesta hoje em outros códigos — vocabulários técnicos, modismos acadêmicos, “influencers” que adotam poses vazias de conteúdo.
O preciosismo mudou de forma, mas não desapareceu. A comédia de Molière nos convida a rir dessas pretensões e a valorizar o que é simples, sincero e verdadeiro. O riso, como instrumento de crítica, ainda é um dos caminhos mais eficazes para desmascarar as ridicularias da sociedade.
As Preciosas Ridículas é muito mais do que uma simples comédia de enganos: é uma obra que inaugura a maturidade artística de Molière e estabelece as bases da comédia de costumes moderna. Com ironia, leveza e inteligência, o autor expõe as contradições de seu tempo — e, ao fazer isso, ilumina também as do nosso.
Ao ridicularizar o preciosismo e a afetação, Molière convida o espectador a refletir sobre a autenticidade nas relações humanas e a forma como usamos a linguagem para esconder — ou revelar — quem realmente somos.
Seu teatro permanece vivo porque continua nos fazendo rir… de nós mesmos.
Até mais!
Tête-à-Tête










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