Franklin de Oliveira | Correio da Manhã , 1959
Otto Maria Carpeaux, História da Literatura Ocidental — 1.º volume: da Grécia à Reforma — Edições O Cruzeiro , Rio, 1959.
“Carschauer-Waremme, uma poderosa figura ambígua de Wassermann, personagem de dimensão dostoievskiana, move-se no Processo Maurizius, de leste para oeste, como em fuga do mundo oriental para o mundo ocidental. Move-se de Breslau, para Jena, Friburgo, ‘sempre de leste para oeste’. É um roteiro simbólico: ‘sim, de leste para oeste, cada vez mais longe da sarjeta para a culminância, depois novamente para o fundo, até o mais profundo; do leste para oeste, como o sol’. Quando emigra para os Estados Unidos, sente que não tem mais pátria em parte alguma, mas também sente que ‘voltar às costas à Europa não quer dizer que se possa viver sem ela’. Começara então — diz Wassermann — ‘a compreender o que a Europa era, na realidade, para um homem como ele. Não representava somente o seu passado pessoal, mas o de trezentos milhões de homens, com tudo o que ele sabia e trazia no sangue; não somente a região que o havia produzido, mas também a imagem e a configuração de todas as regiões situadas entre o Mar do Norte e o Mediterrâneo, sua atmosfera, sua história, sua evolução; não somente essa ou aquela cidade onde havia vivido, mas centenas de cidades e, nestas cidades, as igrejas, os palácios, os castelos, as obras de arte, as bibliotecas, as marcas deixadas pelos grandes homens. Haveria um único acontecimento de sua vida ao qual as gravações de várias gerações não seguiriam associadas, gravações nascidas ao mesmo tempo com ele? A Europa não era apenas o soma dos fenômenos de sua existência individual, amizade e amor, ódio e desgraça, sucesso e decepção; era — ideia inconcebível e que impunha respeito — a existência de um todo que datava de dois milênios,Foi precisamente esta meditação de Wassermann que Paul Hazard usou como resposta à sua pergunta sobre o que é a Europa, em La pensée européenne au XVIIIe Siècle : Otto Maria Carpeaux, austríaco, mas hoje brasileiro, nasceu em Viena, cidade de atmosfera multinacional, meia eslava, meia germânica, meia latina. O itinerário de leste para oeste. É um bom europeu — emigrado, sabe que a Europa não é um conceito, mas um valor. Tal no romance de Wassermann: “Como se poderia recusar à Europa? Ela estava nele. Ele a trazia consigo. Pelo simples fato dele respirar, ela atuava nele”. Citando Mandonnet, nesta História da Literatura Ocidental, Carpeaux lembra-nos que a história espiritual do Ocidente — oeste, Europa — é uma sequência de renascenças. E logo a seguir acrescenta que a Grande Renascença é o ponto oro da civilização ocidental.
Burckhardt (sobre ele, ver os grandes livros de Werner Jaeger, Karl Joel, Karl Loewith, Carl Neumann, Alfred von Martin, A. Janner), pôs ênfase no século XV, no livro que é um corte transversal na civilização renascentista, fase histórica de tão jubilosa grandeza que Huizinga a define em termos musicais: “Época composta em dó-maior”. Kart Brandi declara que o nosso conceito do Renascimento é uma criação de Burckhardt. Com efeito, o sábio historiador de Basiléia concebia a Renascença Italiana como uma província do reino do Espírito. De onde procede a grandeza do Renascimento? Da intuição do real no universo e do idealismo da arte na vida. A intuição do real: a técnica e a potência criadora simbolizadas na cúpula de Brunelleschi dominando a paisagem de Firenze. Nas instituições políticas de Venezia: “Maravilhosa e misteriosa criação na qual interviera algo que está acima do engenho humano”. Em Leonardo mostrando, contra o que Galileu pensava, que a arte não constitui mero engenho da fantasia subjetiva, antes é o genuíno e indispensável instrumento para apreensão das leis em que, numa espécie de pacto (foedere) , se enlaça a natureza. Em Leonardo, homo minister et interpres naturae , ensinando que a criação artística é ato da fantasia, porém de uma imaginação que não admite nenhum momento arbitrário: a fantasia exata , a qual, como diz Mondolfo, repetindo Cassirer, descobre no visível a oculta necessidade interior que o governa, e trata de reproduzi-la. Ainda em Leonardo que ensina que a arte pode conter todas as forças que estão na natureza, e como que não estão. Não fez ele o maior elogio da energia mental quando disse, em um de seus aforismas, que nosso corpo está debaixo do céu, mas que o céu está sob o nosso espírito? Idealismo da arte na vida… O culto artístico do nu, como ele se mostra em Signorelli, enlaça-se com a ideia dehumanitas (Alfredo von Martin, Sociologia do Renascimento). Burckhardt comprovou que por ser o Renascimento o descobrimento do mundo e do homem, nele a descrição do ser humano não foi só espiritual, mas também a descrição externa, e a construção do cortegiano .
“Sobre o estilo de Leonardo da Vinci, lamentamos a omissão da figura de Leonardo como escritor, nesta História da Literatura Ocidental”
Que harmoniosas e finas palavras Carpeaux escreve sobre esses diálogos! Cortegiano — o homem ideal do mundo ideal. O modelo humano de Marsílio Ficino, “assertore dell’uomo come copula mundi” (Carmelo Ferro, ‘Umanesimo e Rinascimento’, in Antologia della Critica Storica , Torino, 1958). Para Ficino como para Pico della Mirandola — diz Bernhard Groethuysen — o homem é uma entidade especial: não só está no mundo, como está diante do mundo; não pertence simplesmente a este mundo, mas é um mundo para si próprio. De onde contém o Renascimento o germe da vida múltipla e multiforme. Luigi Russo em ‘L’Umanesimo e Il Rinascimento’ ( Problemi di Metodo Critico, Bari, 1950), mostra como o conceito da Renascença sofreu, nos últimos quarenta anos, transformação radical. A posição tradicional era de considerar antitéticas como expressões Medievo e Renascimento. Thode, Walser, Burdach, Carl Neumann, Sabatier, Gebhart, Zabughin encontraram as raízes da Renascença no Medievo. Burdach aduziu argumentos ponderáveis para mostrar que a Renascença não começou com os humanistas e Petrarca, mas com Francesco d’Assisi. Eppelsheimer, por sua vez, dá Petrarca como precursor do Renascimento. Thode fixa o início da grande Renascença em 1220: também em Francesco d’Assisi. Walser e Cian colocados em relevo os traços medievais do Cinquecento. Walser descobre uma religiosidade íntima em Maquiavel. Ao contrário de Burdach, Groethuysen encontra em Petrarca o primeiro homem moderno, Petrarca cuja significação profunda — diz o grande mestre holandês — sustentando na realização do autovalor lírico da vivência humana, a interpretação da vida à base da vida mesma, fato impossível no Medievo. Por sua vez Muntz vê em Petrarca um precursor da Renascença. Segundo Werner Kaegi deve-se ao pensamento francês antinapoleônico e ao anticlericalismo italiano a difusão da concepção liberal do Renascimento. A versão de Kart Brandi é também de que a concepção racionalista do século XVIII sobre o Renascimento foi amplamente alimentada pelos ideais de liberdade do século passado. Mas hoje já se reconhece que a ideia da personalidade não foi estranha à Idade Média, a qual cultivou um individualismo indomável. De qualquer forma, a concepção burckhardtiana continua. Para Burckhardt a Renascença é, sobretudo, oQuattrocento : Lorenzo de Médici, Poliziano, Pulei, Ficino, Pico della Mirandola, Alberti. Para Hauser, porém o Cinquecento apenas antecipou os princípios estilísticos da alta Renascença. Esta seria o Cinquecento: Ariosto, Leonardo, Maquiavel, Guicciardini, Leone Ebreo, Castiglione, Cellini, Berni, Michelangelo. “La sintese del Rinascimento — escreve Francesco Flora — la matura coscienza della sua perfezione, si dispiega nel secolo XVI”. Se Carpeaux descobre traços medievais em Pulci, e traços goliardescos, vale dizer, medievais, em Poggio, já em Pontano descobre uma sensualidade dionisíaca, solar, e um senso quase religioso da importância do amor físico. Sabe ele ver profundamente o hedonismo de Lorenzo Valla para o qual “o prazer é o verdadeiro objetivo da vida humana, e o epicurismo é perfeitamente compatível com o cristianismo, que também aspira a um prazer: o da bem-aventurança da vida”.
A perfeita exegese de Carpeaux coincide com a de Cassirer, o qual depois de reconhecer que Valla proclama o prazer não só como bem supremo, mas como o bem absoluto, portanto, princípio básico de todo valor, comenta: “Com efeito, que significa a bem aventurança que o cristianismo promete a seus fiéis? Não é acaso a forma suprema a mais perfeita de prazer?” A identidade das exegeses de Carpeaux e Cassirer deve-se ao fato de acompanharem quase literalmente o Livro III, Cap. 9 (O., vol. 977), doDe volptate: Beatitudinem quis dubitat . A multiforme figura do Quattrocento é Leon Battista Alberti que representa como nenhum outro a prosa propriamente humanística, pela serenidade — diz De Sanctis — das formas tersas e repousadas. Pintura, escultura, arquitetura, matemática, engenharia, direito, umane lettere , teoria das artes visuais — nada escapa à sua atividade mantendo-se a “le buone e sante disciplina di vivere”. O Cinquecento é o auge do Renascimento: Machiavelli, Guicciardini, Michelangelo, Ariosto… Depois do genial estudo de Leonardo Olschki ( Geschichte der neusprachlichen wissenschaftlichen Literatur, Heidelberg, Halfe, Leipzig, 1918–1927, vol. 3) sobre o estilo de Leonardo da Vinci, lamentamos a omissão da figura de Leonardo como escritor, nesta História da Literatura Ocidental , onde o seu nome aparece quase que acidentalmente. Para Attilio Momigliano a prosa leonardeschi “è espressione di’un’inesausta meraviglia per misteri ei prodigi della natura”. Do texto leonardiani ocuparam-se o fino De Robertis (‘La difficile arte di Leonardo’, in Studi , Firenze, 1944); Del Lungo, ‘Leonardo scrittore’, in Patria italiana , Bologna, vol. II, 1912; Benedetto Croce, Saggio sullo Hegel , Bari, 1927; Eugenio Garin, Medioevo a Rinascimento , Bari, 1934; e E. Solmi,Il trattato di Leonardo da Vinci sul linguaggio , Milano, 1910. Um belo estudo sobre a prosa leonardesca — “prota pio orgogliosa ed energica: la prosa che direi morale” — escreveu-o Francesco Flora ( Storia della Letteratura Italiana , vol. 7, capitulo VI, Milano, 1954). Conhecida a clara relação (irrecusável depois dos estudos de Fiorentino e de Cassirer) entre Nicola de Cusa e a Itália renascentista, a exclusão do Cusano desta História da Literatura Ocidental , eis que também a lamentamos, pelo que sobre tema tão fascinante, deixamos de ler em Otto Maria Carpeaux, neste seu livro incomparável que integra o Brasil na vida espiritual do Ocidente.
Franklin de Oliveira , ‘Europa: ideia perene’, Correio da Manhã , Rio de Janeiro, 12 set. 1959, pág. 8.

Até mais!










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