A segunda fase do modernismo no Brasil consolidou a revolução estética iniciada na Semana de Arte Moderna de 1922. Diferentemente da chamada “fase heroica”, esse período (1930–1945) marcou o amadurecimento intelectual do movimento e produziu algumas das obras mais densas da literatura brasileira.

Foi nesse contexto que surgiram nomes como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Vinícius de Moraes — autores que transformaram a literatura nacional ao unir experimentação formal, reflexão existencial e análise social.

Se você ainda não leu sobre o início do movimento, recomendamos Primeira fase do modernismo brasileiro: ruptura estética e revolução cultural.


O que foi a segunda fase do modernismo?

Foto postal do Centro Histórico de Porto Alegre.

A segunda fase do modernismo foi o período de consolidação do projeto iniciado em 1922. Enquanto a primeira fase foi marcada pelo rompimento agressivo com as tradições acadêmicas, a segunda buscou aprofundar os caminhos abertos anteriormente.

Esse período começa em 1930 e termina em 1945, coincidindo com profundas transformações políticas no Brasil e no mundo.

Carlos Drummond de Andrade, um dos principais nomes do período, já vinha divulgando ideias modernistas desde 1925, com a criação de A Revista. Diferentemente da geração anterior, os autores dessa fase apresentaram maior maturidade formal e maior preocupação com a dimensão humana e social da literatura.


Principais características da segunda fase do modernismo

A primeira e a segunda fase compartilham alguns princípios fundamentais:

  • Ruptura com regras estéticas clássicas;
  • Linguagem coloquial e antiacadêmica;
  • Valorização do cotidiano;
  • Crítica às convenções morais tradicionais.

Entretanto, a segunda fase apresenta diferenças importantes:

1. Regionalismo e realidade social

Autores como Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz retrataram o Nordeste brasileiro com realismo duro, expondo seca, miséria e injustiças sociais.

2. Maturidade estética

A ruptura formal torna-se menos panfletária e mais técnica. Há maior domínio literário.

3. Reflexão existencial

Poetas como Drummond introduzem angústia metafísica, solidão e crise de identidade.

4. Influência da psicanálise

A obra literária passa a explorar o inconsciente e conflitos internos, refletindo a influência freudiana.


Contexto histórico da década de 1930

Para compreender a segunda fase do modernismo, é essencial entender seu contexto histórico.

O período foi marcado por:

  • Quebra da Bolsa de Nova York (1929)
  • Revolução de 1930 e ascensão de Getúlio Vargas
  • Revolução Constitucionalista de 1932
  • Avanço de regimes totalitários na Europa
  • Crescente influência do comunismo no meio intelectual

Esse ambiente de instabilidade social e política impactou profundamente a produção artística.

A crise da razão moderna e seus desdobramentos culturais são analisados também em O Século XX e a Crise da Razão – Escola de Frankfurt, técnica e dominação.

A literatura deixa de ser apenas experimental e passa a refletir inquietações históricas concretas.


Drummond e o sentimento de deslocamento

Foto do poeta modernista Carlos Drummond de Andrade.

O poema “Poema de Sete Faces” (1930), de Carlos Drummond de Andrade, é emblemático:

“Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

A palavra gauche sintetiza o espírito da época: deslocamento, inadequação, crise de pertencimento.

O indivíduo moderno aparece fragmentado, inseguro diante de um mundo instável.

Esse tema dialoga com a reflexão sobre arte e espírito histórico desenvolvida Cada época cria a arte que merece? Estética e espírito do tempo.


Principais autores e obras

Entre os nomes centrais da segunda fase, destacam-se:

Graciliano RamosVidas Secas (1938), Memórias do Cárcere
Rachel de QueirozO Quinze (1930)
Érico VeríssimoO Tempo e o Vento
Carlos Drummond de AndradeSentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945)
Vinícius de MoraesNovos Poemas (1938)
Cecília MeirelesRomanceiro da Inconfidência

Esses autores consolidaram a literatura moderna brasileira em patamar internacional.


Críticas à segunda fase do modernismo

Foto antiga de artistas modernistas.

As críticas ao movimento podem ser divididas em dois eixos:

1. Crítica da forma

Alguns críticos argumentam que o modernismo rompeu com a tradição estética ocidental de forma excessiva, criando uma arte desvinculada de raízes mais profundas.

2. Crítica do conteúdo

Parte dos autores modernistas aderiu a ideologias políticas revolucionárias, especialmente ao comunismo. Isso levou críticos a questionarem se a arte estaria se subordinando a projetos ideológicos.

Esse debate se relaciona com a discussão desenvolvida em Arte, ideologia e estética: quando o belo se torna instrumento político.


Segunda fase: consolidação ou crise?

A segunda fase do modernismo não foi apenas continuação — foi transformação.

Ela consolidou a ruptura inicial, mas também introduziu:

  • Maior profundidade psicológica
  • Maior preocupação social
  • Maior sofisticação literária

Ao mesmo tempo, abriu caminho para a chamada terceira fase modernista, marcada por novos experimentalismos e reações internas.


A segunda fase do modernismo no Brasil representa o momento de maturidade do movimento. Se a primeira geração destruiu os pilares do academicismo, a segunda construiu uma nova literatura sobre os escombros da tradição.

Combinando regionalismo, introspecção e crítica social, esse período produziu algumas das obras mais importantes da cultura brasileira.

Mais do que ruptura, foi um momento de consolidação estética e reflexão histórica.


Até mais!

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