Não são leves os laçosdo absurdo exercício:o homem lado a ladocom seu laçado ritmo. muito menos cumpridodo que dependurado,plataforma do umbigoao pescoço do hábito. Mas ao engravatadoqual o conforto vindoprovar que o inimigonão inventou o laço? Por outro lado, faustodo... Continue lendo →
Considerai estes ossos— tíbios, inúteis, apócrifos —que sob a lápide dormemsem prédica que os conforte. Considerai: é o que sobrade quem lhes serviu de invólucroe agora já não se moveentre as tábuas do sarcófago. Dormem sem túnica ou togae, quando... Continue lendo →
No coração da mina mais secreta,No interior do fruto mais distante,Na vibração da nota mais discreta,No búzio mais convolto e ressoante, Na camada mais densa da pintura,Na veia que no corpo mais nos sonde,Na palavra que diga mais brandura,Na raiz... Continue lendo →
Um sábio me dizia: esta existência,não vale a angústia de viver. A ciência,se fôssemos eternos, num transportede desespero inventaria a morte.Uma célula orgânica apareceno infinito do tempo. E vibra e crescee se desdobra e estala num segundo.Homem, eis o que... Continue lendo →
Andar?! Não me custa nada!... Mas estes passos que dou Vão alongando uma estrada Que nem sequer começou. Andar na noite?!Que importa?... Não tenho medo da noite Nem medo de me cansar: Mas na estrada em que vou, Passo sempre... Continue lendo →
Creio nosanjos que andam pelo mundo,Creio na Deusa com olhos de diamantes,Creio em amores lunares com piano ao fundo,Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes, Creio num engenho que falta mais fecundoDe harmonizar as partes dissonantes,Creio que tudo eterno num... Continue lendo →
Pelas rosas, pelos lírios,Pelas abelhas, sinhá,Pelas notas mais chorosasDo canto do sabiá,Pelo cálice de angústiasDa flor do maracujá! Pelo jasmim, pelo goivo,Pelo agreste manacá,Pelas gotas do serenoNas folhas de gravatá,Pela coroa de espinhosDa flor do maracujá! Pelas tranças da mãe-d'águaQue... Continue lendo →
Em cada corpo recomeça o mundo,mas onde então acaba este começo?Amor não sabe mais o que é profundo,vem da pele e respira só no verso. Passamos a toalha pelo corpo,com o suor a enxugar a morte:há gotas de água fria... Continue lendo →
O homem, quando completa oitenta anos, é jogado impiedosamente no outro lado da vida. Com a maturidade adquirida existe um dilema, encontra uma dubiedade na sua existência: o que podia ter feito e que não fez, e o que fez... Continue lendo →
Na ingênua esperança de um dia encontrar-te deixo a solidão pela qual procuro esconder-me de mim mesmo e saio a tua procura. Abro minha alma à vida lá fora. Mas que surpresa? Ninguém sabe de ti, nem as flores que... Continue lendo →
Amor de minhas entranhas, morte viva,em vão espero tua palavra escritae penso, com a flor que se murcha,que se vivo sem mim quero perder-te.O ar é imortal. A pedra inertenem conhece a sombra nem a evita.Coração interior não necessitao mel... Continue lendo →
Numa casa portuguesa fica bempão e vinho sobre a mesa.Quando à porta humildemente bate alguém,senta-se à mesa coa gente.Fica bem essa fraqueza, fica bem,que o povo nunca a desmente.A alegria da pobrezaestá nesta grande riquezade dar, e ficar contente. Quatro... Continue lendo →
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!Criança! não verás nenhum país como este!Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,É um seio de mãe a transbordar carinhos.Vê que vida há no... Continue lendo →
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,E que nele posso navegar sem rumo,Não respondasÀs urgentes perguntasQue te fiz.Deixa-me ser felizAssim,Já tão longe de ti como de mim. Perde-se a vida a desejá-la tanto.Só soubemos sofrer, enquantoO nosso amorDurou.Mas... Continue lendo →
Eu, quando choro,não choro eu.Chora aquilo que nos homensem todo o tempo sofreu.As lágrimas são as minhasmas o choro não é meu. ... António Gedeão (1906-1997) Até mais! Equipe Tête-à-Tête
Guio-mePor teus olhos abertosSobre a trêmula e ardenteSuperfície das lágrimas. De tantas coisasÉ feito o Mundo! Entre escombros, espigas, dias e noitesProcuram os homens ansiosamenteO ramo de louro. Quando, fatigados,Próximos estão do limiar, do pórtico,Os homens deixam, à entrada,Suas mais... Continue lendo →
Ir-me-ei embora. E ficarão os pássarosCantando.E ficará o meu jardim com sua árvore verdeE o seu poço branco. Todas as tardes o céu será azul e plácido,E tocarão, como esta tarde estão tocando,Os sinos do companário. Morrerão os que me... Continue lendo →
Eu não voltarei. E a noitemorna, serena, calada,adormecerá tudo, sobsua lua solitária.Meu corpo estará ausente,e pela janela altaentrará a brisa frescaa perguntar por minha alma. Ignoro se alguém me aguardade ausência tão prolongada,ou beija a minha lembrançaentre carícias e lágrimas.... Continue lendo →
Condenado estou a te amarnos meus limitesaté que exausta e mais querendoum amor total, livre das cercas,te despeça de mim, sofrida,na direção de outro amorque pensas ser total e total serános seus limites da vida. O amor não se medepela... Continue lendo →
Se tu me amas, ama-me baixinhoNão o grites de cima dos telhadosDeixa em paz os passarinhosDeixa em paz a mim!Se me queres,enfim,tem de ser bem devagarinho, Amada,que a vida é breve, e o amor mais breve ainda... ... Mário Quintana... Continue lendo →
Quemsabe um diaQuem sabe um seremosQuem sabe um viveremosQuem sabe um morreremos! Quem é queQuem é machoQuem é fêmeaQuem é humano, apenas! Sabe amarSabe de mim e de siSabe de nósSabe ser um! Um diaUm mêsUm anoUm(a) vida! Sentir primeiro,... Continue lendo →
É uma escada em caracol E que não tem corrimão. Vai a caminho do Sol Mas nunca passa do chão. Os degraus, quanto mais altos, Mais estragados estão, Nem sustos nem sobressaltos servem sequer de lição. Quem tem medo não... Continue lendo →
É quando um espelho, no quarto,se enfastia;Quando a noite se destacada cortina;Quando a carne tem o travoda saliva,e a saliva sabe a carnedissolvida;Quando a força de vontaderessuscita;Quando o pé sobre o sapatose equilibra...E quando às sete da tardemorre o dia-... Continue lendo →
E por vezes as noites duram mesesE por vezes os meses oceanosE por vezes os braços que apertamosnunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meseso que a noite nos fez em muitos anosE por... Continue lendo →
As asas não lhe cabem no caixão!A farpela de luto não condizCom seu ar grave, mas, enfim, feliz;A gravata e o calçado também não.Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!Descalcem-lhe os sapatos de verniz!Não veem que ele, nu, faz mais figura,Como... Continue lendo →
Todo esse vosso esforço é vão, amigos:Não sou dos que se aceita... a não ser mortos.Demais, já desisti de quaisquer portos;Não peço a vossa esmola de mendigos. O mesmo vos direi, sonhos antigosDe amor! olhos nos meus outrora absortos!Corpos já... Continue lendo →
A meu favorTenho o verde secreto dos teus olhosAlgumas palavras de ódio algumas palavras de amorO tapete que vai partir para o infinitoEsta noite ou uma noite qualquer A meu favorAs paredes que insultam devagarCerto refúgio acima do murmúrioQue da... Continue lendo →
Há palavras que nos beijamComo se tivessem boca,Palavras de amor, de esperança,De imenso amor, de esperança louca. Palavras nuas que beijasQuando a noite perde o rosto,Palavras que se recusamAos muros do teu desgosto. De repente coloridasEntre palavras sem cor,Esperadas, inesperadasComo... Continue lendo →
MINHA ALMA TEM O PESO DA LUZTEM O PESO DA MÚSICATEM O PESO DA PALAVRA NUNCA DITA,PRESTES QUEM SABE A SER DITATEM O PESO DE UMA LEMBRANÇATEM O PESO DE UMA SAUDADETEM O PESO DE UM OLHARPESA COMO PESA UMA... Continue lendo →
O que é bonito neste mundo, e anima,É ver que na vindimaDe cada sonhoFica a cepa a sonhar outra aventura...E que a doçuraQue se não provaSe transfiguraNuma doçuraMuito mais puraE muito mais nova... ... Miguel Torga (1907-1995) Até mais! Equipe... Continue lendo →
O amor é uma companhia.Já não sei andar só pelos caminhos,Porque já não posso andar só.Um pensamento visível faz-me andar mais depressaE ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. Mesmo a ausência dela é uma... Continue lendo →
Olha que coisa mais lindaMais cheia de graçaé ela menina, que vem e que passaNum doce balanço a caminho do mar Moça do corpo douradoDo sol de IpanemaO seu balançado é mais que um poemaé a coisa mais linda que... Continue lendo →
Eu sou a que no mundo anda perdida,Eu sou a que na vida não tem norte,Sou a irmã do Sonho, e desta sorteSou a crucificada... a dolorida... Sombra de névoa tênue e esvaecida,E que o destino amargo, triste e forte,Impele... Continue lendo →
Ah! arrancar às carnes laceradasSeu mísero segredo de consciência!Ah! poder ser apenas florescênciaDe astros em puras noites deslumbradas! Ser nostálgico choupo ao entardecer,De ramos graves, plácidos, absortosNa mágica tarefa de viver! Quem nos deu asas para andar de rastos?Quem nos... Continue lendo →
Deixa dizer-te os lindos versos rarosQue a minha boca tem pra te dizer!São talhados em mármore de ParosCinzelados por mim pra te oferecer. Têm dolência de veludos caros,São como sedas pálidas a arder...Deixa dizer-te os lindos versos rarosQue foram feitos... Continue lendo →
Hoje que seja esta ou aquela,pouco me importa.Quero apenas parecer bela,pois, seja qual for, estou morta. Já fui loura, já fui morena,já fui Margarida e Beatriz.Já fui Maria e Madalena.Só não pude ser como quis. Que mal faz, esta cor... Continue lendo →
Permita que eu feche os meus olhos,pois é muito longe e tão tarde!Pensei que era apenas demora,e cantando pus-me a esperar-te. Permite que agora emudeça:que me conforme em ser sozinha.Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem... Continue lendo →
No vale dos afectosninguém está seguro:mingua a lembrançaEsquece-se o rosto,Retorna-se ao eu,Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se apresença ausenta-se, há o lago deque não se vê o fundo E apenas as pequenas ilusões-um café, o cigarro, a... Continue lendo →
Guio-mePor teus olhos abertosSobre a trêmula e ardenteSuperfície das lágrimas. De tantas coisasÉ feito o Mundo! Entre escombros, espigas, dias e noitesProcuram os homens ansiosamenteO ramo de louro. Quando, fatigados,Próximos estão do limiar, do pórtico,Os homens deixam, à entrada,Suas mais... Continue lendo →
Sobre mim, teu desdém pesado jazComo um manto de neve... Quem disseraPorque tombou em plena PrimaveraToda essa neve que o Inverno traz! Coroavas-me inda há pouco de lilásE de rosas silvestres... quando eu eraAquela que o Destino prometeraAos teus rútilos... Continue lendo →









