Expressões como Oriente Próximo, Oriente Médio e Oriente Distante são amplamente utilizadas em livros, jornais e debates políticos, mas raramente são explicadas com clareza. Esses termos não designam regiões naturais ou culturais definidas de forma objetiva; eles surgiram a partir de uma perspectiva europeia, histórica e geopolítica, e carregam sentidos que mudaram ao longo do tempo. Compreender essas expressões é essencial para evitar confusões e simplificações sobre áreas do mundo profundamente diversas.


A origem do termo “Oriente”

A palavra Oriente vem do latim oriens, que significa “lugar onde o sol nasce”. Em oposição, o Ocidente (occidens) seria o lugar onde o sol se põe. Desde a Antiguidade, essa distinção tinha mais um valor simbólico e cultural do que geográfico rigoroso.

Na Idade Moderna, especialmente a partir do expansionismo europeu, “Oriente” passou a designar todas as regiões situadas a leste da Europa. Esse uso consolidou-se nos séculos XVIII e XIX, quando potências europeias passaram a classificar o mundo segundo seus próprios centros de poder e referência.


Oriente Próximo

O termo Oriente Próximo (Near East) surgiu no século XIX, principalmente no contexto diplomático e acadêmico europeu. Ele designava as regiões mais próximas da Europa oriental e do Mediterrâneo.

Tradicionalmente, o Oriente Próximo inclui:

  • Turquia (especialmente a Anatólia)
  • Síria
  • Líbano
  • Israel e Palestina
  • Jordânia
  • Parte do Egito (especialmente a região do Sinai)

Historicamente, essa região foi o coração de grandes civilizações antigas — mesopotâmica, egípcia, hebraica, fenícia e greco-romana — além de ser o berço das três grandes religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo.

Hoje, o termo é menos usado na linguagem política cotidiana, mas ainda aparece em estudos históricos, arqueológicos e bíblicos.


Oriente Médio

O conceito de Oriente Médio (Middle East) é mais recente e ganhou força no início do século XX, sobretudo no contexto estratégico do Império Britânico. Ele se refere a uma região situada entre o Oriente Próximo e o Oriente Distante, especialmente relevante por suas rotas comerciais e, mais tarde, por suas reservas de petróleo.

O Oriente Médio geralmente inclui:

  • Arábia Saudita
  • Irã
  • Iraque
  • Kuwait
  • Emirados Árabes Unidos
  • Catar
  • Omã
  • Iêmen
  • Síria, Líbano, Israel e Jordânia (em algumas definições)
  • Egito (em contextos geopolíticos)

Diferentemente do Oriente Próximo, o Oriente Médio é uma categoria geopolítica, não apenas histórica ou cultural. Sua definição pode variar conforme o contexto político, militar ou econômico.


Oriente Médio não é homogêneo

Apesar do uso frequente no singular, o Oriente Médio é extremamente diverso:

  • Étnica e linguisticamente: árabes, persas, turcos, curdos, judeus, armênios, entre outros
  • Religiosamente: islamismo sunita e xiita, cristianismo oriental, judaísmo, além de minorias religiosas
  • Politicamente: monarquias, repúblicas autoritárias, Estados teocráticos e democracias parciais

Reduzir essa complexidade a uma identidade única é um dos erros mais comuns na abordagem do tema.


Oriente Distante

O termo Oriente Distante (Far East) refere-se às regiões mais distantes da Europa, situadas no extremo leste do continente asiático.

Inclui, de modo geral:

  • China
  • Japão
  • Coreias (Norte e Sul)
  • Vietnã
  • Tailândia
  • Camboja
  • Laos
  • Indonésia
  • Filipinas

Historicamente, o Oriente Distante foi associado a culturas milenares com tradições filosóficas e religiosas próprias, como o confucionismo, o taoismo, o budismo e o xintoísmo. Para os europeus, essas sociedades eram vistas como “exóticas”, reforçando uma visão orientalista que ainda influencia imaginários contemporâneos.


Críticas aos termos tradicionais

Nos estudos contemporâneos, muitos autores criticam o uso dessas expressões por serem:

  • Eurocêntricas, pois partem da Europa como ponto de referência
  • Imprecisas, já que seus limites variam conforme o autor ou o contexto
  • Generalizantes, ignorando diferenças internas profundas

Por isso, há uma tendência crescente de substituir esses termos por designações mais específicas, como:

  • Ásia Ocidental (em vez de Oriente Médio)
  • Levante (para a região do Mediterrâneo oriental)
  • Sudeste Asiático, Leste Asiático, etc.

Por que os termos ainda são usados?

Apesar das críticas, essas expressões continuam em uso por:

  • Tradição histórica
  • Conveniência jornalística
  • Consolidação em documentos diplomáticos
  • Uso corrente na mídia e no ensino básico

O problema não está no uso em si, mas na falta de consciência crítica sobre sua origem e limitações.


Conclusão

Oriente Próximo, Oriente Médio e Oriente Distante não são categorias neutras ou naturais, mas construções históricas criadas a partir de um olhar europeu sobre o mundo. Entender seus significados, origens e limites ajuda a evitar simplificações e a compreender melhor a complexidade cultural, histórica e política dessas regiões.

Mais do que rótulos geográficos, esses termos revelam como o próprio ato de nomear o mundo é também um ato de poder, interpretação e perspectiva histórica.


Até mais!

Tête-à-Tête